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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Carentes e ingratos

O mês tinha acabado e, pela primeira vez na vida, me sentia verdadeiramente útil. Havia sido convidado para dar aulas de redação para um grupo de jovens carentes. Sem grana para pagar um cursinho, tinham de contar com a boa vontade de voluntários. O líder comunitário do bairro, uma cara chamado César, fez a proposta. Duas aulas por semana, à noite, durante dois meses. Nada de cachê, ajuda de custo ou qualquer outra forma de remuneração. Cafezinho, água e olhe lá. Topei. O centro comunitário ficava perto de casa e, afinal, um homem tem de fazer algo por seus semelhantes pelo menos uma vez na vida.

A turma tinha uns 30 alunos, a maioria na faixa dos 17, 18 anos. Uma meia dúzia na casa dos vinte e poucos. Notei umas jovens carentes bem interessantes na sala. Começava a gostar desse negócio de bancar o professor. Minha tarefa não era das mais fáceis. A maioria dos alunos escrevia de modo sofrível. Era humanamente impossível mudar isso em dois meses. Minha estratégia, então, foi ensiná-los algumas técnicas para minimizar os possíveis erros. Não tinha a menor idéia se daria certo ou não, mas não enxergava outra saída.

Estava em casa tomando uma cerveja e lendo Bukowski quando o telefone tocou.

- Alô?

-Guerra?

-Sim.

-Aqui é o César, tudo bem?

-Tudo, cara. O que manda?

-No sábado, todos os centros comunitários ligados à CJC vão se reunir na sede estadual para fazer uma homenagem àqueles que nos ajudaram este ano. E você é um dos homenageados.

-César, deixa isso pra lá. Não curto esse negócio de homenagem.

-Mas você tem de ir, cara. Os alunos fazem questão. Vai ser uma superfesta. E não se preocupe porque vou te pegar em casa.

- Cara, sei não...

-Sem conversa, Guerra. Sábado às 11h.

-Tudo bem.

Às 11h em ponto a campainha tocou. Odeio gente pontual, principalmente aos sábados pela manhã. A tal sede estadual ficava em Nazaré Paulista, interior do Estado. Duas horas de viagem no máximo, me garantiu César enquanto deixávamos São Paulo. Quando chegamos fazia um calor daqueles. Céu limpo, nenhuma nuvem no horizonte. Minha cabeça só conseguia pensar numa cerveja bem gelada. O lugar era enorme e ficava no meio do nada. Abrigava centenas de jovens carentes. Ali também ficava o comando central da CJC, me explicou César.

- O que significa CJC? - perguntei a ele.

- Comunidade dos Jovens Cristãos - respondeu.

Comecei a ficar preocupado.

Fui deixado por César numa sala junto com outros homenageados. Uma velha obesa, vestindo um avental com as iniciais CJC bordadas em azul, servia água e refrigerante para um grupo de pessoas sentado numa mesa próxima. Veio em minha direção.

-O senhor gostaria de beber alguma coisa? - perguntou.

-Sim, uma cerveja, por favor.

-Aqui não temos bebidas alcoólicas, senhor. Ensinamos nossos jovens a se manterem afastados do álcool. - Ela disso isso com orgulho e um ar de superioridade.

-É assim que vocês pretendem me homenagear? - perguntei.

Ela fingiu não entender e me deu as costas. Sábado, calor de matar, sem cerveja e a quilômetros de distância do bar mais próximo. O pessoal não deve ter ido bem no vestibular, pensei.

Meu martírio estava apenas começando. Dali, fui levado para um auditório e obrigado a assistir a uma peça de teatro organizada pelos internos. Era a história de uma jovem de 18 anos que vivia angustiada, sem ânimo de viver, tratando as pessoas à sua volta com agressividade. Matei de cara o problema: falta de sexo. Uma boa trepada e estava tudo resolvido. Na peça, no entanto, ela se entrega a Deus e encontra a salvação. Ainda via no sexo o jeito mais simples de resolver a questão.

A "homenagem" não parou por aí. Depois da peça, um show de música gospel com duas horas de duração. Várias bandas e cantores se revezando no palco e eu sem uma corda ou arma para cometer suicídio. De vez em quando, só para me irritar, a senhora gorda vinha me oferecer refrigerante.

Consegui sobreviver. No carro, voltando para casa, disse a César que procurasse outro professor para a temporada seguinte. "Por quê?!, ele perguntou. "Odeio ingratidão", respondi.

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Conto enviado por Roberto Guerra. Jornalista, contista e leitor deste blog.

6 comentários:

Anónimo 13 de Ago de 2009 01:15:00  

Ninguém merece ir nesses lugares onde vivem uma falsa realidade. Ficar escutando pessoas gritando Deus, Deus, Deus por mais de duas horas, só pode ser doença

Luis "BioHaZaRd" Jr. 13 de Ago de 2009 10:22:00  

heauheuaehauehauehuaehuae
Q merda isso, "homenagem" sem cerveja literalmente não rola! heuaheuaheuahee

Rafael 13 de Ago de 2009 15:56:00  

Haha, eu faria o mesmo.
Ninguem merece ir a um lugar que não lhe agrada, ser repreendido por gostar de algo que a "comunidade" não aprova, e ainda não ter como ir embora de lá por estar denpendendo de alguem para isso.

Enciclopédia Rosa 13 de Ago de 2009 15:59:00  

iaueiuaiaue... Adoreiiiii o texto, muito bom mesmo parabéns ao autor!
Parabéns pelo blg!
Beijos ;**

Marcelo 15 de Ago de 2009 00:37:00  

Na boa... vc não gostar de determinadas coisas é opção sua... mas desdenhar do serviço de outras pessoas que estão tentando ajudar é, no mínimo, burrice. Se fosse homem o suficiente, falava a pessoa que te levou que aquilo não estava agradando e pedia para ir embora. Mas pra colocar um "conto" na internet todo mundo tem coragem né... humpf...

gordinhum 16 de Set de 2009 16:31:00  

nossa, adorei essa imagem. Vcs sabem quem é o autor?
abraço! o/

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