A traição de Magali
Otávio chegou ao puteiro e esquadrinhou o ambiente à procura de Ana. Apesar da pouca iluminação, percebeu logo que ela não estava. Provavelmente atendia algum cliente num dos quartos no andar de cima. Dirigiu-se ao bar, pediu um uísque e acendeu um cigarro. - Seu Otávio, como vai? A mala do senhor já está lá em cima. A Ana levou para o quarto agora pouco – disse o barman enquanto servia a dose.
- Como levou para o quarto?! – perguntou Otávio aparentemente exasperado.
- Eu também achei estranho já que o senhor não havia chegado, mas ela disse que ia precisar – respondeu o garçom percebendo que talvez tivesse sido melhor ter ficado calado.
Otávio frequentava aquele puteiro nas proximidades do cais do porto há três anos. Aparecia por lá no mínimo uma vez por semana, sempre às terças ou quartas, dias de pouco movimento. Mesmo assim, não era raro encontrar Ana acompanhada de algum freqüentador da casa. Ela era a mais bonita entre as 20 mulheres que trabalhavam ali. Dona de olhos verdes penetrantes, sorriso amplo e um corpo que causava inveja às outras garotas, Ana não precisava fazer muito esforço para conseguir clientes. Mas os atributos físicos dela eram o que menos importava para Otávio. Sua fixação por aquele lugar e por Ana se devia ao fato dela ser a única mulher a realizar sua fantasia. Uma obsessão que carregava desde a infância.
Quando criança, Otávio fora um leitor voraz de história em quadrinhos. Era fã em especial da turma da Mônica e sua personagem predileta era a Magali. Ao contrário de seus amigos da época, mais interessados em heróis masculinos, Otávio cultuava a divertida personagem. Pedia para sua mãe comprar tudo que estivesse ligado a ela, de revistinhas e pôsteres a camisetas, mochilas e bonecos.
Sua obsessão ganhou caráter sexual quando tinha por volta de 13 anos. Deitado em sua cama e folheando uma revistinha, Otávio começou a reparar que a Magali até que era bem gostosinha. Excitado, bateu a primeira punheta de sua vida imaginando-se levantando aquele vestidinho curto amarelo e fodendo aquela bocetinha que devia ser tão saborosa e suculenta quanto as fatias de melancia que ela comia nas historinhas.
A infância ficou para trás, mas a tara de Otávio por Magali não desvaneceu. Durante anos, frequentou dezenas de puteiros atrás de uma mulher que se dispusesse a vestir uma fantasia da personagem que carregava numa mala. Virgem aos 35 anos, tinha posto na cabeça que sua primeira vez seria com sua amada Magali. Mas em toda zona que ia, virava motivo de zombaria quando revelava seu desejo. Estava desolado quando entrou no Palace e conheceu Ana. Ao contrário do que imaginava, depois de ouvir sua história, ela topou o que achou ser uma brincadeira inocente e proporcionou a Otávio a melhor noite de sua vida.
Otávio já estava no terceiro uísque quando Ana desceu. Ela abriu seu sorriso largo inconfundível, deu-lhe um beijo e perguntou se queria subir. Otávio acenou positivamente e os dois foram para o quarto.
- Por que você levou a fantasia para cima sendo que eu não estava aqui? – perguntou ele, calmamente, enquanto subiam as escadas.
- Ah, meu bem, é que contei para um outro cliente a história da Magali e ele achou interessante. Pediu para experimentar também. Você não se importa, né? Sei que você não é ciumento.
Otávio realmente não tinha nenhum ciúme de Ana. Nunca havia se importado com o fato dela ser uma das mulheres mais requisitadas do lugar. Mas não admitiria uma traição daquelas de Magali. Uma hora depois, desceu as escadas, atravessou o salão impassível e foi embora. Deixava para trás o grande amor da sua vida, estrangulada entre os lençóis.
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Conto enviado por Roberto Guerra. Jornalista, contista e leitor deste blog.


































3 comentários:
Pô, KF... Antes de chegar ao final achei que fosse seu. Transmita nosso elogio ao Roberto e a sua cabeça perversa.
No final das contas, e vc traduziu isso na ilustra, a Magali se transformou numa gatíssima com transtorno alimentar, certo?
Bjs
ai que demais! adorei o conto.. me diverti muito.. "até que ela era gostosinha" hahaha
muito bom!
um beijo Van!
Arram, a Magali tornou-se uma baita de uma gostosa.. =x
hehehehe, adorei o conto do Roberto também!
^^
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